O PROBLEMA DA COGNIÇÃO E DA AMPLITUDE CULTURAL NO USO DA IA
Os problemas do uso da Inteligência Artificial - IA - que estão aumentando
a cada dia no seu uso cotidiano e escolar, não estão restritos a, apenas,
entender como a IA funciona, mas, especialmente, em como estruturar o
pensamento para saber perguntar e analisar as respostas dadas por ela1. Isso me lembra o famoso educador brasileiro Paulo Freire e seu livro "Por
uma pedagogia da pergunta". Saber perguntar é fundamental em qualquer área
do conhecimento.
Infelizmente, principalmente nos dias atuais, pouca gente sabe, de fato,
organizar o pensamento por falta de treino cognitivo e a tão desejada
metacognição, por consequência, não acontece2.
Hoje, antes de treinar alguém para entender como a IA funciona, ainda que
isso me pareça fundamental, temos de treinar a cognição. Algo importante - e
triste - que a IA está revelando, e que estava mascarada na sociedade, é a
falta de capacidade de estruturar o pensamento e articular ideias. Isso
parece estar sendo agravado pelo excesso de uso das redes sociais que está
fazendo com que o Córtex Pré-Frontal (CPF) seja subutilizado3.
Como ele é responsável direto pelo autocontrole e pensamento crítico e
analítico, essas funções deixam de atuar reforçando a incapacidade de
desenvolver a metacognição. Nessa perspectiva, as partes do nosso cérebro
que mais atuam em seu lugar, no sentido de algo como "ter de pensar de algum
modo sem o CPF pronto e treinado", são a Amígdala, o Hipocampo e os Gânglios
da base, mais voltados a respostas emocionais e impulsivas (sem a reflexão
necessária)4.
Esse é um ponto seríssimo que todos nós deveríamos discutir em todas as
áreas do conhecimento. Na prática, as pessoas têm, cada vez mais,
dificuldade de expor seus pensamentos por não terem desenvolvido a
capacidade de estruturá-los. É uma questão de ampliação cultural e
treinamento cognitivo que se faz urgente, pois impacta seriamente a
produtividade, a educação etc5. Simplesmente, não há como ser
produtivo e educado com a mínima qualidade sem desenvolver a cognição, o
raciocínio lógico e o pensamento profundo tendo como base para isso a
cultura mais ampla possível, ou seja, os "dados" a serem processados pelo
CPF.
Os dados necessários que alimentam o CPF e que serão processados por ele
estão cada vez mais escassos dada a baixa amplitude cultural vigente. Sem
dados em quantidade e qualidade, fica difícil criar uma estrutura de
pensamento minimamente profunda e crítica.
A cultura musical pode ser um bom exemplo: muitas pessoas ouvem música,
poucas a escutam. Trata-se da diferença entre ouvir um ruído de fundo e
apreciar os detalhes prazerosos de cada nota tocada ao piano no contexto de
uma bela sinfonia. A música popular, de modo geral, se transformou em um
objeto de consumo em que se divertir é mais importante do que sentir e
apreciar. Mario Vargas Llosa aborda com maestria essa questão em Civilização
do espetáculo, em que a cultura se transformou em entretenimento tornando-se
superficial e voltada para o consumo de massa6. Esses são os
tipos de dados que estarão disponíveis para serem processados pelo
CPF.
Em resumo, precisamos de dois itens fundamentais para desenvolver o
pensamento mais crítico e profundo: um processador e uma memória de longo
prazo adequada a esse processamento. O primeiro está comprometido por
desuso; o segundo tem capacidade ociosa maior do que a desejável e/ou dados
irrelevantes para o tipo de pensamento em questão.
Nota: De fato, pesquisas de doutorado recentes, como as conduzidas na
Middlesex University (Baldeo, 2026), já trazem evidências
neurocomportamentais da atenuação das funções executivas do Córtex
Pré-Frontal decorrentes do descarregamento cognitivo (cognitive
offloading) excessivo em ferramentas de IA generativa.7
Referências
1 - Shapiro, H., Souto-Otero, M., & Watermeyer, R. (2026).
Metacognitive AI literacy: going beyond the AI skills gap agenda. Learning,
Media and Technology, 1–15.
https://doi.org/10.1080/17439884.2026.2652638
2 - Westover, J. H. The Metacognitive Paradox of AI-Assisted Creativity: A
Theoretical Extension. Preprints 2026, 2026030121.
https://doi.org/10.20944/preprints202603.0121.v1
3 - Satani A, Satani KK, Barodia P, Joshi H. Modern Day High: The
Neurocognitive Impact of Social Media Usage. Cureus. 2025 Jul
8;17(7):e87496. doi: 10.7759/cureus.87496. PMID: 40777702; PMCID:
PMC12329480.
4 - De D, El Jamal M, Aydemir E, Khera A. Social Media Algorithms and Teen
Addiction: Neurophysiological Impact and Ethical Considerations. Cureus.
2025 Jan 8;17(1):e77145. doi: 10.7759/cureus.77145. PMID: 39925596; PMCID:
PMC11804976.
5 - Lodge, Jason M.; Loble, Leslie (2026). Artificial intelligence,
cognitive offloading and implications for education. University of
Technology Sydney. Report.
https://doi.org/10.71741/4pyxmbnjaq.31302475.v2
6 - VARGAS LLOSA, Mario. A civilização do espetáculo: uma radiografia do
nosso tempo. Tradução de Ivone Benedetti. Rio de Janeiro: Objetiva,
2013.
7 - Baldeo, S. (2026). Generative artificial intelligence reliance and
executive function attenuation: Behavioral evidence of cognitive offload in
high-use adults. Technology, Mind, and Behavior. Advance online publication.
https://dx.doi.org/10.1037/tmb0000191
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