SOBERANIA INTELECTUAL EM IA

 


Muitas discussões estão sendo feitas na "área do momento": a inteligência artificial (IA). Os focos temáticos nessa área são os mais diversos: algoritmos, funcionamento de um modelo de IA, formação de professores em IA, o que devemos saber sobre a IA, discussões éticas e de vieses etc.


Nesse post, o meu foco será a soberania. Essencialmente, há dois debates postos na mesa de discussão: a soberania tecnológica/dados e a intelectual. Há várias discussões no Brasil sobre soberania de modelos, dados etc., mas, na minha percepção, pouco se discute sobre a soberania intelectual. Mas, o que é soberania intelectual? Segundo um recente documento do Conselho Alemão de Ciências e Humanidades[1] sobre o tema, "Soberania intelectual é a capacidade de agir livre e autonomamente na aquisição e produção de conhecimento, bem como a capacidade de pensar autonomamente e justificar decisões por meio de argumentação racional. No que diz respeito ao uso da IA generativa, soberania intelectual significa uma integração crítica e construtiva das tecnologias de IA e uma mudança de perspectiva, da questão do uso ideal da IA para a questão da preservação e promoção do pensamento e julgamento humanos independentes em um mundo de vida e trabalho permeado por algoritmos." (tradução minha). 


Creio que devamos dar mais relevância a, já vigente, "terceirização da cognição" [2] que tem e terá efeitos danosos nos curto e médio prazos, impactando a produtividade e a educação fortemente.
Nessa perspectiva, penso que tematizar o debate público com maior relevância para a soberania intelectual torna-se fundamental, dada a urgência desse debate. Modelos socráticos, por exemplo, estimulam a estruturação do pensamento, a metacognição e o viés epistêmico, na contramão da terceirização que, infelizmente, domina o uso atual da IA por falta de suporte a quem, desse modo, a utiliza.


Devemos fomentar esse debate em paralelo com o que já fazemos com relação aos dados e à tecnologia. Não se trata de copiar iniciativas externas, mas, sim, de ser alertados por elas. Esse, me parece, ser o caso. O pensamento profundo, a capacidade de estruturá-lo, a capacidade de análise e o senso crítico são habilidades cada vez mais importantes na nossa sociedade.


Outro ponto que me chamou a atenção no documento do Conselho Alemão foi o "espaço livre de IA" [3]. No contexto educacional, significa usar a IA de modo socrático para aprender, discutir, analisar e, depois, em um outro espaço físico, sem ela, conversar sobre o que foi "aprendido". Sem a IA, de fato, você tem de estruturar o pensamento, exercitar a metacognição etc. Desse modo, pode-se avaliar o "efeito IA" no processo de aprendizagem e corrigir possíveis rotas inadequadas. Esse passo me parece muito relevante, pertinente e necessário nesse processo. 


Cada um pode usar a IA, em um sentido mais geral, do modo que quiser, mas, uma conversa que foca em estruturação do pensamento, análise, argumentação, discussão de posicionamentos diante de problemas propostos, por exemplo, depois desse uso, é que vai determinar se esse modo foi adequado para se aprender algo ou não.


Enfim, soberania sim, mas as duas: técnica/uso e tratamento de dados e intelectual. A escolha de não terceirizar modelos e dados de treinamento, para se ter um modelo próximo do ideal para um contexto educacional e acadêmico, é tão importante quanto não terceirizar a cognição para esse mesmo modelo.

Nota: Algo importante para se ter em mente ao usar um modelo de IA: "Sem supervisão humana ou mecanismos de verificação, um LLM tende a produzir textos altamente verossímeis, mas não garante que sejam verdadeiros." (sugerida pelo ChatGPT)



Referências


[1] WISSENSCHAFTSRAT. Kritisches Denken lässt sich nicht an eine KI delegieren. Pressemitteilung n. 15/2026, 6 jul. 2026. Disponível em: 
Wissenschaftsrat – Pressemitteilung 15/2026. Acesso em: 11 jul. 2026.

[2] Guo, Y., Ye, Q. Meta-cognitive insights into cognitive offloading: mechanisms, interventions, and educational implications. Humanit Soc Sci Commun 13, 772 (2026). https://doi.org/10.1057/s41599-026-06621-5

[3] Wang H and Shan W (2026) The safety gap: restoring productive struggle through pedagogically aligned generative AI. Front. Educ. 11:1757622. doi: 10.3389/feduc.2026.1757622
 

Imagem de Kohji Asakawa por Pixabay


Prof. Carlos Sanches



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